Por Marcelo Cardoso

O colunista Marcelo Cardoso escreve sobre as descobertas que a maturidade vem lhe trazendo.

Sou velho. E, para mim, isso tem sido uma novidade.

Passei a vida inteira sendo o mais novo significativo da sala. Comecei a trabalhar aos catorze anos; aos dezessete já era supervisor, gerente aos vinte e dois, diretor aos vinte e oito, CEO aos trinta. Minha identidade se construiu sobre a precocidade, sobre ser o jovem que chegava antes, performar e ser o melhor. Outro dia, num grupo, fui chamado de ancião e apresentado como guardião de uma linhagem de trabalhadores da transformação pessoal nas organizações. Confesso que, às vezes, me assusto.

O susto não é por ter envelhecido, mas por me reconhecer em um outro lugar, em outros papéis que me convidam a me colocar de novas formas. Essas formas me ajudam a responder perguntas existenciais que me inspiram:

Quem sou eu sem o crachá, sem o próximo resultado a provar?

A vida tem me pedido mais espaço, presença e troca, e às vezes o condicionamento ainda me faz ter pressa, querer entregar e acelerar.

Arthur Brooks deu nome a uma parte disso em From Strength to Strength: a maldição do batalhador. Fomos treinados para subir uma curva de desempenho que um dia inevitavelmente declina e, como grudamos a identidade no que entregamos, quando ela cede sentimos que estamos deixando de existir. Existem, diz ele, dois tipos de inteligência: a fluida, feita de velocidade e inovação, que atinge o pico cedo; e a cristalizada, feita de sabedoria e capacidade de ensinar, que só floresce na segunda metade. No livro mais recente, The Meaning of Your Life, ele descreve o pano de fundo do nosso tempo, uma era de vazio, em que preenchemos a falta de sentido com mais entrega, mais consumo, mais aplauso, sem nunca preencher.

David Deida, mestre que me acompanha há décadas, oferece um mapa que vai além. E, embora ele fale a partir do masculino, descreve uma passagem humana, que vale para todos nós. São três fases. A primeira, básica, ocupada em garantir o essencial, sustento, segurança, pertencimento.

Quem nunca sai dela segue eternamente carente e com algo a provar, e é dessa imaturidade, na sua versão masculina, que brota boa parte da violência. A segunda, do propósito, é a de quem, tendo o suficiente, quer fazer melhor, busca a maestria e descobre que servir é o que mais realiza. E há uma terceira, em que mesmo a maestria e o serviço deixam de preencher e tudo se esvazia de sentido, ainda que a vida esteja externamente perfeita. É o estado que Deida chama de zero.

E aqui está a virada que a maturidade me ensina. Diante desse vazio, há dois caminhos fáceis: preenchê-lo com mais realização ou desabar nele, o que chamamos de depressão. Zero não é nenhum dos dois. Zero, diz Deida, é não resistir ao que é, não somar nem subtrair, permanecer inteiro e presente mesmo sem motivação. Não é apatia nem embotamento: é ficar aberto, lúcido e disponível. E, quando não se colapsa, algo se revela: deixamos de ser movidos pela ambição e passamos a ser vividos por uma força maior. A vida move e cria através de nós. É o que ele chama de liberdade além da ambição.

Não se trata de virar monge.

Deida diz, com humor, que é mais fácil ser monge do que casado, porque, quanto mais complexidade, mais somos arrancados do zero. E é justamente aí que ele se prova. É fácil permanecer aberto quando nada nos ataca; difícil é sustentar essa presença numa reunião tensa, numa crítica, numa perda.

A empresa, com suas urgências e conflitos, é o mosteiro às avessas, o lugar onde o zero é testado o tempo todo.

Isso muda o que significa liderar na maturidade. O líder da segunda metade não vale pela velocidade com que resolve, mas pela presença e pela sabedoria que transmite. Deixa de ser o que prova e passa a ser o que forma, o que sustenta o campo para que outros cresçam e faz as perguntas em vez de ter todas as respostas.

Talvez tenha sido isso o que quiseram dizer ao me chamarem de ancião. E, no entanto, tantas organizações descartam essa sabedoria no auge dela, chamando de renovação o desperdício da única inteligência que o dinheiro não compra.

Confesso que ainda me assusto com a palavra ancião, e que largar a identidade de batalhador dói mais do que eu esperava. E é mais difícil ainda porque tudo ao redor segue pedindo de nós exatamente o que sempre demos: mais velocidade, mais entrega, mais prova. Desenvolver esse outro olhar dentro de uma cultura e de organizações que fazem o oposto, convencidas de que assim melhoram o desempenho, é remar contra a corrente. Ainda assim, tento. Deida tem uma frase que me acompanha: o amor é uma agonia que não se contrai.

Talvez amadurecer seja isto: permanecer permeável, aberto ao que dói e ao que encanta, sem endurecer. Passei a vida achando que precisava provar para existir.

Descubro, tarde e a tempo, que é quando deixamos de nos provar que a vida, enfim, tem espaço para nos atravessar, e passamos a ter algo a oferecer.

Artigo original: https://valor.globo.com/carreira/coluna/sou-um-velho-e-o-mais-significativo-ainda-pode-estar-a-frente.ghtml

Marcelo Cardoso é fundador da consultoria Chie e presidente do Instituto Integral Brasil.