Por Marcelo Cardoso
O colunista Marcelo Cardoso escreve sobre a permanência de práticas que as organizações insistem em adotar, mesmo sabendo que são ineficazes.
Nesta Copa, me flagrei indiferente à seleção. Para mim, que tenho no futebol uma fonte de alegria e paixão, isso beira a heresia. Mas, ao me observar, entendi que o problema talvez não seja a indiferença, e sim a paixão antiga que insisto em cobrar. Continuo esperando o Brasil de 70 e 82, a beleza que inventamos e que nos tornou únicos. O mundo aprendeu e evoluiu o jogo; nós ficamos reféns da própria lenda, apaixonados por uma memória, incapazes de atualizar a relação com o presente.
É um tipo curioso de desengajamento. Não é frieza; é o oposto: só fica refém do passado quem um dia amou demais. O futebol passa pelos afetos, tanto que memórias de jogos são usadas em terapias de reminiscência com pacientes de Alzheimer, alcançando o que parecia perdido. O problema é quando a memória vira gaiola, e a grandeza de ontem nos impede de amar e evoluir com o que existe hoje.
Levei essa imagem para o trabalho, porque vejo a mesma prisão nas organizações. O século XX inventou a corporação moderna, o emprego, a carreira, o organograma e a gestão por controle. Funcionou, nos trouxe progresso, e foi exatamente esse sucesso que virou armadilha. Como a seleção, as grandes empresas seguem reféns de uma beleza que um dia foi real, gerindo o presente com os artefatos de um mundo que já não existe.
Chris Argyris, nos anos 1960, em Harvard, ajudou a cunhar uma ideia que Denise Rousseau desenvolveria depois: a de contrato psicológico, o acordo tácito de expectativas mútuas que existe além do contrato formal de trabalho. O pacto que herdamos do pós-guerra era simples: estabilidade em troca de lealdade. Esse contrato morreu, substituído por um muito mais transacional: sucesso em troca de vitalidade. E ele morre justamente quando o significado do trabalho está em profunda transformação.
A inteligência artificial substitui tarefas e postos em ritmo inédito, e cresce a suspeita de que talvez não haja emprego formal para todos que o desejam. A renda básica universal deixa de ser utopia para virar pauta de governos. Mas o abalo é mais profundo do que econômico. Por séculos, o trabalho foi o eixo em torno do qual organizamos identidade, pertencimento e dignidade; é no que fazem que muitas pessoas encontram a resposta para quem são. Quando esse eixo se desloca, não é só a renda que fica em risco, é o sentido.
E há os que o jogo sequer convida a entrar. A ironia, de novo iluminada pelo futebol: quem lotava os estádios e dava alma ao jogo eram os pobres, hoje sem condições de pagar o ingresso das arenas que os expulsaram. O esporte que se modernizou virou as costas para quem o tornou grande, como a economia que se moderniza descarta os trabalhadores que a ergueram. Cresce uma multidão de excluídos para quem a economia formal talvez nunca tenha lugar, e uma sociedade que não precisa do trabalho de todos terá de inventar outras formas de pertencer.
Não por acaso, e talvez por falta de oportunidades, tanta gente passou a valorizar o empreendedorismo e a autonomia, mesmo que, às vezes, isso venha acompanhado da precarização das condições, como nas plataformas. Na falta de um vínculo adequado com as organizações, as pessoas, atônitas, tentam escrever novos contratos.
No limite, a própria ideia de organização entra em questão. A empresa do século XX, hierárquica, fechada, definida pelo emprego, dissolve-se em redes, plataformas e arranjos fluidos. Talvez não estejamos diante do fim do emprego, mas do fim de um certo tipo de organização que confundimos com a única possível.
Diante dessa virada, seria de esperar que as empresas repensassem o vínculo. A maioria, porém, faz o contrário: dobra a aposta no controle e maquia a relação com marketing. Sem conseguir honrar um contrato psicológico íntegro, importou do consumo a “marca empregadora”, com o employee value proposition, tratando o colaborador como cliente a ser seduzido. É o show do intervalo, cheio de verde e amarelo e samba, mas sem alma, enquanto o time, em campo, segue jogando o futebol de resultados do século passado.
Reengajar, no futebol ou no trabalho, não é restaurar o passado nem cobrar de volta a paixão perdida. É ter a coragem de atualizá-la: entender o que é essencial e merece ser preservado, e ousar mudar o resto. A seleção não voltará a ser a de 82, e a empresa não será a do organograma estável. O que se pode construir é um novo contrato, à altura deste século, em que autonomia, propósito e aprendizagem substituam a ilusão de controle. Porque ninguém permanece refém, por amor, de quem se recusa a mudar junto.
Artigo original: https://valor.globo.com/carreira/coluna/a-selecao-de-futebol-e-a-corporacao-moderna-sofrem-do-mesmo-mal.ghtml



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