Por Marcelo Cardoso

O colunista Marcelo Cardoso escreve sobre o que leva as pessoas a seguirem trabalhando em modelos de trabalho que adoecem e prejudicam outras áreas da vida.

Ha pouco, ao trabalhar com o time executivo de uma grande empresa, me vi diante de pessoas em média dez anos mais novas que eu, brilhantes e entregando horas, Viagens e ausencias. Alguns, já adoecidos. Senti no corpo a dor daquilo antes de qualquer raciocínio e nomeei: trabalhem, mas não abram mão dos afetos e outras áreas da vida, porque o trabalho tem um papel, mas não é tudo. Deu para sentir que alguns ouviram; outros, por incrivel que pareça, não.

Aquilo me lembrou o maço de cigarros. Está escrito lá que causa câncer, e mesmo assim se acende o próximo. O problema nunca foi falta de informação: todos conhecem o custo, as ausencias que não voltam, os casamentos que desmoronam, o corpo que um dia cobra a conta. O aviso está impresso, e seguimos fumando. É que a informação não nos move; movem-nos o que sentimos, o que os outros reforçam e a ilusão de que, comigo, será diferente.

Pior: a mesma empresa que imprime o aviso vende o cigarro e aplaude quem tuma dois maços. Celebramos quem “não abre mão” e chamamos isso de comprometimento.

Há uma raiz mais funda. Cedo na vida montamos um roteiro sobre o que precisamos para sermos felizes, aceitos e amados; como ele nasce de necessidades que ficaram sem resposta na infância, passamos a vida buscando o que, no fundo, não podem nos dar. Levamos essa fome para o trabalho, e a organização se alimenta dela: quanto mais carentes de reconhecimento, mais energia entregamos em troca da promessa de sermos, enfim, suficientes. Mas reconhecimento corporativo não cura ferida de origem.

Como brincava Stanislaw Ponte Preta, de onde não se espera nada é de lá que não vem nada mesmo, e teimamos em esperar do trabalho justamente o que ele nunca teve para dar.

Falo como quem não leu o próprio rótulo. Em 2012, ainda executivo da Natura, olhando para minha agenda, descobri que passava mais de 60% do tempo em comites e foruns que eu não havia escolhido, mas aos quais era obrigado a comparecer.

Como brincavamos na epoca, estavamos em carcere privado, não só dedicando os anos mais vitais da vida, mas encaixotados entre reuniões improdutivas.

O rótulo estava à vista, e ainda assim segui acendendo o próximo cigarro por alguns anos. Foi esse mesmo padrão que reencontrei naquela sala: agendas tomadas por reuniões intermináveis, nas quais as pessoas se colocam de forma reativa e defendida. A estrutura não rouba só o tempo; mantém todos num estado que impede o amadurecimento. E seria injusto, quase arrogante, reduzir o trabalho a essa conta. Escrevo de um lugar privilegiado: colhi frutos, inclusive financeiros. das estruturas que agora questiono. Num pais tão desigual, para a maioria o trabalho não é realização, mas dignidade e sustento, e não raro é ele a saída de situações de vida muito duras.

Devo muito a esse mundo: ao que aprendi nas empresas por onde passeie a pessoas extraordinárias, muitas ainda por perto trinta, vinte, dez anos depois. O problema nunca foi o trabalho, mas a desmedida, co fato de que largar o cigarro não é uma escolha igualmente disponível para todos. Por isso o mesmo contexto que aprisiona poderia libertar. Robert Kegan e Lisa Lahey descreveram as organizações deliberadamente desenvolvimentais, aquelas que fazem do próprio trabalho um lugar de crescimento, em que a tarela deixa de ser só entrega e vira ocasião de amadurecer.

Não se trata de trabalhar menos, mas de trabalhar de um jeito que desenvolve em vez de consumir. A reunião que hoje ativa defesas poderia cultivar consciência, se a cultura tratasse o erro como aprendizado, e não como ameaça. Porque quase ninguém larga o cigarro por mais um aviso. Larga por uma rachadura: um susto, uma perda, um instante em que se observa de fora.

E o trabalho é pródigo em rachaduras, uma demissão inesperada, uma promoção que não veio, uma crise que escancara o que fingiamos não ver. Essas fissuras tem um nome, arrependimento, não o da culpa que paralisa, maso que ensina e ilumina o que importa.

O problema é que ele quase sempre chega tarde, depois da conta paga. Ma, porem, como antecipá-lo: imaginar hojeo arrependimento de amanhã, o que diremos a nós mesmos daqui a quinze anos sobre os filhos que não vimos crescer e a saúde que entregamos.

Há pouco entrevistei Candice Pomi, que no podcast “Tantos Tempos” pergunta sempre: quando é que se fica velho? Devolvi a pergunta a ela.

A maioria responde que se envelhece ao perder a vontade, a energia, a curiosidade. A resposta me pegou, e a adotei agora que fiz 60 anos: fica-se velho quando nos libertamos das amarras que nos impedem de ser quem viemos ser.

É o oposto do declínio: a rachadura enfim cumprindo sua função, soltar-nos do roteiro que confundia ser amado com ser suficiente e devolver-nos à essencia. O aviso já está impresso em todos nós. A pergunta que fica é o que será preciso para lê-lo antes do diagnóstico. Porque tempo, afeto e saúde, ao contrário dos resultados, não têm segundo ciclo.

Artigo original: https://valor.globo.com/carreira/coluna/causa-cancer-e-seguimos-fumando.ghtml

Marcelo Cardoso é fundador da consultoria Chie e presidente do Instituto Integral Brasil