Por Marcelo Cardoso
O colunista Marcelo Cardoso escreve sobre o que não aparece no P&L e que pode ser o que mais determina o resultado das organizações
Yuval Harari argumenta que a principal habilidade da nossa espécie não é a inteligência individual, mas a capacidade de criar ficções compartilhadas que permitem a cooperação em larga escala. O dinheiro só funciona porque todos concordam que ele funciona.
Uma empresa de capital aberto vale o que vale porque milhões de pessoas sustentam, simultaneamente, a mesma narrativa sobre o seu valor. O mercado financeiro inteiro é um ato coletivo de imaginação. Quando a narrativa se rompe, o valor evapora.
Toda organização é, portanto, um campo de narrativas sustentado por pessoas que, ao falarem em nome da empresa, falam também desde seus próprios propósitos, sonhos e virtudes, mas igualmente desde seus medos, sombras e desejos não examinados. Luz e sombra ao mesmo tempo, sempre. Um neurocientista contemporâneo sintetiza com uma provocação: quando alucinamos individualmente, somos internados; quando alucinamos coletivamente, chamamos isso de realidade.
Esse campo narrativo é real. Pode ser compreendido como um campo de sentido que acumula memória e se perpetua ao longo do tempo. Quem já entrou em uma organização e sentiu, antes de qualquer dado, que ali havia algo denso e travado ou, ao contrário, algo vivo e fértil, sabe do que estou falando.
Esse campo não aparece em nenhum relatório gerencial. Mas determina a qualidade das decisões, a velocidade da execução e a capacidade de inovar.
Vi isso de dentro. Em 2008. assumi como vice-presidente da Natura em um momento de crise, com processos desestruturados. Ainda assim, a empresa fazia cerca de 70% de margem bruta e mais de 20% de Ebitda. Não era sorte.
Luiz Seabra fundou a Natura sobre valores filosóficos profundos. A formulação do Bem Estar Bem se inspirou em Pierre Teilhard de Chardin. Os cosméticos eram veículo de transformação pessoal. O modelo comercial olhava para as consultoras primeiro como mulheres, depois como consumidoras, e só então como vendedoras. Uma narrativa fundadora de transcendência e um modelo centrado em relação criaram um campo tão potente que sustentava resultado mesmo onde a estrutura falhava.
Na Eileen Fisher, um dos primeiros clientes da Chie, via mesma dinâmica. Uma organização com forte presença feminina, que contrariava o lugar comum das metas e da objetividade para construir uma marca genuinamente transformadora.
O resultado também nascia de algo que nenhum modelo convencional de gestão conseguiria explicar. Mas se o campo invisível pode construir valor, também pode ser destruído por quem não o enxerga. Acompanhei um caso em que uma empresa adquiriu outra com margens muito superiores às suas. A adquirida cuidava das pessoas de forma radicalmente diferente: yoga nas linhas de picking, creche, filhos perto das mães. Logo após a aquisição, para capturar uma vantagem fiscal, aceleraram a integração jurídica e operacional. O valor foi destruído. O que sustentava aquela margem não estava na planilha de sinergias. Estava no campo. E ninguém o viu.
As organizações investem fortunas para otimizar o visível e negligenciam quase tudo o que é invisível: a qualidade das relações, o estado emocional a partir do qual se decide, os medos que ninguém nomeia, mas também os sonhos que ninguém escuta. Em uma conversa recente com Marcelle Xavier, fundadora da Amuta, ela me trouxe Humberto que nos torna mais inteligentes, porque quando vemos o outro como legítimo, deixamos de negar a realidade e ampliamos nossa capacidade de ação. Marcelle traduz isso na frase que orienta seu trabalho com comunidades: “eu te vejo, e quando te vejo, faço ser possível que você floresça”.
Talvez o próximo passo da gestão não seja um novo modelo, mas uma nova percepção: a de que somos todos narradores parciais de uma realidade que nos excede, movidos por luz e sombra ao mesmo tempo. E que a qualidade do que construímos juntos depende menos da sofisticação das ferramentas e mais da honestidade com que olhamos para o lugar de onde estamos narrando. Se o que mais determina o resultado não está no P&L, por que seguimos gerindo apenas o que pode ser medido?
Maturana: o amor é a emoção
Artigo original: https://valor.globo.com/carreira/coluna/a-anestesia-existencial-das-liderancas.ghtml



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