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Por que a velhice incomoda tanto?

Foto do escritor: Marcelo Cardoso
Marcelo Cardoso
26 de set. de 2024
3 min de leitura

 

Por Marcelo Cardoso


O colunista Marcelo Cardoso reflete sobre o etarismo no mercado de trabalho

 

O impasse na candidatura de Biden sobre a sua aparente perda cognitiva tem implicações além da política, fala também sobre temas um tanto silenciosos quanto urgentes, que são a longevidade e o envelhecimento na sociedade e no trabalho.


A primeira coisa a se notar, a despeito da perceptível dificuldade de Biden, é que não damos o mesmo peso para quando outras lideranças mais joviais tambémdemonstram dificuldade de articulação cognitiva, falando besteiras e se confundindo. Nos faz pensar: seria a falta de capacidade cognitiva que nos incomoda ou é a velhice?


Envelhecimento não é o mesmo que senilidade. Está aí o filósofo francês Edgar Morin, com seus 103 anos de idade, lúcido e produtivo. Perguntado sobre qual é a receita da lucidez, ele respondeu: “o amor e a curiosidade”. Chegarei nisso.


Tive a honra de conversar para meu podcast, há pouco, com o querido Dr. Alexandre Kalache, referência internacional em gerontologia, ativista e, como ele mesmo diz, um velho. Ele nos chama atenção para muitas questões: implicações sociais, de saúde pública e cidadania, para as organizações e para o bem-estar pessoal. Uma vez que muito provavelmente chegaremos na velhice em uma sociedade despreparada, temos que nos cuidar: “se quiser envelhecer bem, comece o mais cedo possível, e nunca é tarde demais”, nos diz Kalache.


A longevidade é uma conquista social. O aumento radical de expectativa de vida nos últimos 120 anos implica no envelhecimento gradual da população. No Brasil, esse processo é ainda mais acelerado. Em 2050, os idosos representarão 31% da população, sem termos aproveitado o bônus demográfico para resolver nossas questões sociais, algo que foi melhor equalizado nos países desenvolvidos que passaram por esse processo.


Se o envelhecimento é um fenômeno natural e a longevidade, uma conquista, por que temos tantos desafios nessa área? A maior barreira é o preconceito - o idadismo ou etarismo -, que joga estes assuntos incômodos no “quartinho no fundo do terreno”, como fazemos com nossos velhos. Isso se manifesta de diversas formas, mas vou focar aqui no trabalho. Nas organizações, o etarismo se dá sobretudo na falta de políticas que considerem a transição e os papéis adequados para os mais velhos. Ainda impera a lógica de carreira linear até a aposentadoria, que desrespeita os velhos empurrando-os à obsolescência.


Devemos ter em mente que o declínio inevitável de algumas faculdades é suprido pelo aumento de outras. Arthur Brooks, autor de “Cada vez mais forte”, introduz o conceito de inteligência cristalizada, que é “a capacidade de usar um estoque de conhecimento aprendido no passado”. O autor argumenta que a queles que se reinventam apoiados nesse tipo de competência são mais realizados na maturidade.


Kalache nos contou que estudos demonstram que idosos e idosas são os mais resilientes nas crises e tragédias, mantendo a comunidade unida e esperançosa, harmonizando as relações intergeracionais.


Hoje, as organizações carecem de um senso de comunidade que considera toda diversidade possível; e se hoje temos até cinco gerações trabalhando juntas, quanto potencial está sendo perdido ao ignorarmos a contribuição que os mais velhos podem trazer ao ambiente de trabalho, compondo times que somam ascompetências agregadoras da senioridade com a vitalidade realizadora dos mais jovens? Voltando a Morin, o amor e a curiosidade são mesmo essenciais para envelhecer bem.


O amor de pertencer e participar da comunidade, que é vital nesse processo. E a curiosidade, que é um convite ao “aprendizado ao longo da vida”, para nos adaptarmos constantemente às mudanças, nos renovando em interesses, mantendo acesa a chama pelo conhecimento e a criatividade para saber se reinventar, reconhecendo as nossas mudanças mentais, emocionais e físicas com a idade.


“Não é só aprender tecnologias. Aprendizado ao longo da vida é aquilo que a gente aprende ao rever nossos conceitos para dar um salto qualitativo como pessoa”, conclui Kalache. O que eu concordo inteiramente!



Marcelo Cardoso é fundador da consultoria Chie e presidente do Instituto Integral Brasil

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