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O fracasso do propósito e a ilusão do herói

Foto do escritor: Marcelo Cardoso
Marcelo Cardoso
30 de jun. de 2025
3 min de leitura

 

Por Marcelo Cardoso


O colunista Marcelo Cardoso escreve sobre a importância de parar de buscar protagonismo épico e trabalhar com o possível - com humildade, presença e inteireza.

 

Duas semanas atrás, após uma palestra, uma amiga com quem compartilho quase 20 anos de jornada profissional me disse: “Te achei muito pessimista.


O comentário me atravessou. Desde então, essa pergunta me acompanha: Qual é o lugar do otimismo e o do pessimismo quando se procura estar lúcido diante do que vivemos como humanidade? Viktor Frankl oferece uma pista preciosa: “O otimismo não é a convicção de que tudo vai dar certo, mas a certeza de que vale a pena fazer, mesmo que não dê.


Vivemos imersos na ilusão de que compreendemos a realidade - mas o que chamamos de “realidade” é apenas um recorte, moldado por sentidos limitados e por estruturas cerebrais feitas para simplificar, não para revelar a verdade.


Nosso cérebro não busca precisão, busca sobrevivência. Ele interpreta, distorce, preenche lacunas. A realidade que experimentamos é sempre parcial - mediada por memórias, emoções e crenças.


Manter sobriedade e lucidez diante disso é um dos maiores desafios do nosso tempo. Antes de qualquer diagnóstico organizacional ou social, é preciso reconhecer: vemos o mundo não como ele é, mas como conseguimos suportá-lo.


Uma parte minha, animada desde muito cedo com a ideia de um mundo mais justo, inclusivo e sustentável, se pergunta se não fomos todos abduzidos por uma distorção.


O ceticismo me cutuca: talvez nada disso vá acontecer. Talvez sejamos só ondas quebrando na areia, enquanto líderes autocráticos se revezam no poder e a esperança se dilui.


Mas outra parte - mais silenciosa e resiliente - ainda percebe beleza no instante. Ela me lembra que, mesmo quando o plano maior parece falhar, algo se move: na escuta, no encontro, na presença viva.


Por anos, minha bússola foi clara: contribuir para organizações mais conscientes.

Mas olhando para o estado do mundo - colapsos ambientais, crises institucionais, esgotamento coletivo - é impossível não admitir: na escala macro, meu propósito fracassou.


E, paradoxalmente, foi esse propósito “fracassado” que me moveu, transformou e conectou a contextos de potência real.


Aqui emerge um aprendizado: o efeito colateral das nossas ações pode ser mais importante do que a intenção que as originou.


Nos apegamos tanto à ideia de um propósito nobre e bem-sucedido que esquecemos de olhar para o impacto real - muitas vezes invisível, mas profundo.

Essa expectativa de sucesso está ligada à lógica da Jornada do Herói.


Crescemos esperando o salvador: o CEO visionário, o consultor genial, o líder transformador. Ou, pior, tentando ser essa figura. Mas talvez não haja um final redentor. Talvez o ciclo seja outro.


O mundo não precisa de heróis. Precisa de comunidades maduras, capazes de sustentar o paradoxo, reconhecer seus monstros internos e agir com responsabilidade - mesmo sem garantias.


Exercitar o propósito a partir da aceitação do fracasso é um processo de reconciliação com a sombra.


É parar de buscar protagonismo épico e trabalhar com o possível - com humildade, presença e inteireza.


Como diz Bayo Akomolafe: “Quando você encontrar o monstro, unja seus pés.

Que possamos lembrar que a verdadeira ação nasce não da pressa de resolver, mas da presença que sustenta o que é.


A pergunta que fica: O que assusta mais? O que expande? Qual é o caminho que, mesmo sem garantia, ainda assim pulsa?


Quando encontrarmos o monstro, que não o enfrentemos com espada.

Que toquemos sua pele com mãos vazias, olhos atentos, coração rendido.

Pois talvez o verdadeiro propósito não seja vencer o monstro, mas sentar ao seu lado, aprender sua linguagem e seguir dançando, juntos, no centro do paradoxo.

Marcelo Cardoso é fundador da consultoria Chie e presidente do Instituto Integral Brasil

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