Por Marcelo Cardoso

O colunista Marcelo Cardoso fala sobre a importância de as organizações e profissionais valorizarem mais o ritmo do estado emocional de cada um.

Falamos o tempo todo de gestão do tempo. Organizamos agendas, encurtamos reuniões, redesenhamos modelos de trabalho. Ainda assim, seguimos cansados. Talvez porque o problema central do trabalho contemporâneo não seja a escassez de tempo, mas a má gestão da energia.

A confusão começa quando restringimos a experiência da realidade ao tempo cronológico, o tempo do relógio, dos prazos e das horas trabalhadas. É nele que as organizações estruturam quase toda a gestão. Mas a maior parte da vida acontece em outro lugar, no tempo psicológico. É ali que habitam tanto estados emocionais que drenam energia, como culpa, ansiedade e medo, quanto estados emocionais que a expandem, como interesse, entusiasmo, alegria e senso de propósito. A diferença entre eles não é moral, mas energética.

Estados emocionais distintos qualificam a energia disponível de forma muito diferente. Podemos estar fisicamente presentes em uma reunião e energeticamente ausentes. Ou, em um momento de lazer, pensando no trabalho. O relógio marca o tempo, mas é o campo psicológico que determina a qualidade da energia.

Mesmo assim, insistimos em tentar resolver esse desgaste reorganizando o tempo cronológico. Ajustamos agendas, discutimos modelos remoto, presencial ou híbrido, definimos horários e formatos. O debate é revelador. Quase toda a conversa se apoia em variáveis de tempo e espaço, quando o que realmente está em jogo é psicológico e energético. Pertencimento, confiança, autonomia e identidade. Mudamos a forma, mas preservamos o mal-estar.

Essa fragmentação se intensifica quando tentamos encaixar todos os papéis da vida no mesmo tempo cronológico. Trabalho, família, autocuidado, amizades e descanso disputam espaço na agenda como se fossem equivalentes. No tempo psicológico, porém, esses papéis carregam demandas emocionais distintas e muitas vezes conflitantes. A tentativa de estar inteiro em todos eles ao mesmo tempo produz um esgarçamento silencioso. Não falta tempo. Falta energia integrada para sustentar tantos endereços da vida sem fronteiras claras.

Quando olhamos para as organizações, a mesma lógica se repete. A gestão é orientada quase exclusivamente pelo tempo cronológico, mas pouco se reconhece que o que sustenta motivação, colaboração e criação de valor é a energia disponível e com qualidade. Essa energia não está localizada no tempo-espaço do relógio. Ela circula nas relações, no sentido atribuído ao que fazemos e na qualidade das trocas. Quando fica aprisionada em estados emocionais que drenam energia, o sistema funciona, mas perde vitalidade.

Depois que passei a olhar o trabalho por essa lente, adotei uma pergunta simples ao final de cada reunião: saio com mais ou com menos energia? A resposta raramente tem relação com a duração do encontro. Ela revela a qualidade do encontro, o tipo de estado emocional mobilizado e o equilíbrio entre dar e receber.

Existe ainda uma terceira dimensão, pouco reconhecida na gestão, o tempo cosmológico. Não o tempo que passa, nem o tempo que sentimos, mas o tempo que é. Um presente contínuo, anterior ao fazer. É o tempo que tocamos, por exemplo, quando nos damos conta de que estamos conscientes. Quando a atenção repousa sobre a própria experiência de estar aqui, agora. Práticas como mindfulness não criam esse tempo, apenas nos ajudam a lembrá-lo. É nele que a energia se integra em vez de se fragmentar. Esse tempo não se administra. Ele se acessa pela qualidade da atenção.

Os três tempos coexistem. Não se trata de abandonar o tempo cronológico, mas de aprender a habitá-lo com maturidade. É nele que criamos rituais, ritmos e fronteiras que permitem à energia circular sem se dissipar. Pausas reais. Inícios e fins claros. Ritmos que respeitam ciclos de esforço e recuperação. Fronteiras que protegem o equilíbrio entre dar e receber no trabalho, nas relações e no autocuidado.

Quando essas estruturas faltam, a energia se perde. Pessoas dão mais do que recebem ou se fecham para não sentir. O que chamamos de burnout não é apenas excesso de trabalho, mas colapso energético por desequilíbrio prolongado nas trocas.

Quando muda o ano isso fica visível. Cronologicamente, nada muda. Cosmologicamente, tampouco. Ainda assim, bilhões de pessoas alteram hábitos, encerram ciclos. O calendário não muda nada. O que transforma é o ritual, que reorganiza a atenção e a energia.

Talvez o convite deste período seja desejar que possamos parar de gerir nossas vidas como calendários e começar a cuidar delas como jardins. Menos controle, mais atenção. Menos acúmulo, mais qualidade. Para que o melhor da nossa energia possa se apresentar em nós, nas relações e no mundo que estamos continuamente criando.

Artigo original: https://valor.globo.com/carreira/coluna/de-onde-vem-as-decisoes.ghtml

Marcelo Cardoso é fundador da consultoria Chie e presidente do Instituto Integral Brasil