Por Marcelo Cardoso
O colunista Marcelo Cardoso escreve sobre a importância de desenvolver a habilidade da metacognição para melhores tomadas de decisão.
Vivemos uma era de reatividade crônica. Redes sociais inflamam indignações em segundos. Mercados oscilam ao sabor de declarações impulsivas. Conselhos de administração deliberam sob pressão contínua. Muitas decisões parecem orientadas pela urgência – e não pela qualidade do discernimento.
Talvez o desafio do nosso tempo não seja a complexidade em si, mas a incapacidade de perceber como estamos percebendo essa complexidade. É aqui que entra a metacognição.
Metacognição é a capacidade de observar o próprio processo de pensamento. Não é apenas pensar, mas perceber como pensamos. Não é apenas decidir, mas reconhecer o estado interno a partir do qual decidimos. É criar um intervalo entre estímulo e ação.
Sem esse intervalo, reagimos.
Com ele, respondemos. Reagir é automático e proporcional à pressão do momento. Muitas vezes parte da marca digital do passado – experiências, medos, crenças e condicionamentos que moldam nossa interpretação antes mesmo de compreendermos o que o presente está, de fato, nos apresentando. Responder exige consciência ampliada – e a disposição de sustentar tensão antes de agir.
No encontro anual do Fórum Econômico Mundial, em janeiro, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, afirmou que o mundo vive uma “ruptura da ordem mundial”, não uma simples transição. Ao falar no “fim de uma ficção confortável”, não criticava apenas políticas específicas. Questionava o enquadramento que as tornava possíveis. Em vez de reagir a medidas pontuais, tornou visível o paradigma. Esse O cientista cognitivo John Vervaeke sugere que inteligência é a capacidade de decidir o que é relevante. Sob pressão, porém, nosso sistema de relevância se estreita. O imediato domina a atenção. E o que domina a atenção passa a orientar decisões, mesmo quando o contexto exige visão mais ampla.
Nas organizações, o fenômeno se repete. Conselhos e executivos operam sob forte pressão por resultados. A capacidade interna de cada indivíduo – e do grupo como um todo – tende a se contrair. Medo de perda de valor, ansiedade reputacional, necessidade de controle: estados muitas vezes não reconhecidos filtram decisões que se apresentam como puramente racionais.
Metacognição começa quando perguntamos: a partir de qual estado interno estamos decidindo? Mas essa é apenas a porta de entrada.
Observar o próprio pensamento não basta. É preciso desenvolver a capacidade de não ser sequestrado por ele. Sustentar ambiguidade sem precipitação. Ampliar a percepção quando o contexto se torna incerto. Regular o estado interno antes de intervir no ambiente externo.
É curioso notar que, enquanto a realidade expõe os limites dos nossos modelos mentais, empresas seguem investindo milhões de dólares em treinamentos baseados na lógica de acumular competências. Acrescenta-se uma nova ferramenta, um novo framework, quase sempre derivado de desafios do passado. Parte-se do pressuposto de que liderar melhor é saber mais.
A realidade sugere outra direção.
O problema raramente está na falta de técnica. Está na incapacidade de sustentar discernimento sob pressão, revisar pressupostos quando o ambiente muda e ampliar o campo de percepção diante da complexidade. Competências acumuladas não substituem maturidade.
À medida que evoluímos, ampliamos aquilo que conseguimos perceber. Primeiro reagimos ao conteúdo dos fatos. Depois reconhecemos interdependências e dinâmicas sistêmicas. Em níveis mais complexos, percebemos que até esses sistemas são construções interpretativas – mapas organizados por nossa linguagem e cultura. Não são a realidade em si, mas formas de organizá-la.
Se o modelo é uma construção, ele pode – e talvez deva – ser revisto.
Em ambientes de fragmentação crescente, a liderança não entra em colapso por falta de informação. Entra em colapso quando perde coerência interna.
Em sistemas que se fragmentam, integridade é vantagem competitiva, por quem revisa suas próprias lentes antes de agir.
Talvez o século XXI não seja decidido por quem reage mais rápido, mas por quem sustenta discernimento sob pressão. Não por quem acumula mais frameworks, mas por quem revisa suas próprias lentes antes de agir.
Porque, em sistemas complexos, o erro raramente está na intenção – mas na decisão prematura que não tolera ambiguidade suficiente para compreender o que está em jogo.
Em tempos de fragmentação, permanecer inteiro é um ato de liderança.
Artigo original: https://valor.globo.com/carreira/coluna/de-onde-vem-as-decisoes.ghtml



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