Por Marcelo Cardoso
O colunista Marcelo Cardoso escreve sobre como a crise de significado pode explicar a dificuldade das empresas em tomar decisões verdadeiramente transformadoras.
Recentemente estive com uma organização financeira construída desde o início com base em inteligência artificial. Não se trata apenas de tecnologia. Trata-se de um novo tipo de operação, com estruturas enxutas e acesso a uma capacidade de execução que, na prática, parece quase ilimitada. Ao longo de mais de quatro décadas em diferentes indústrias, desenvolvi uma habilidade constante: compreender rapidamente os desafios apresentados. Dessa vez foi diferente.
Enquanto ouvi o que estavam construindo, percebi que precisava fazer um esforço real de imaginação para acompanhar. E, junto com isso, vieram duas sensações.
Por um lado, gosto de me sentir assim. Há algo vivo em não saber. Por outro, senti um frio na barriga. Dentro da mesma organização, observei reações opostas. Algumas pessoas estavam energizadas pelas possibilidades. Outras apresentavam sinais claros de esgotamento, burnout, medicação, uma sensação de não acompanhar o ritmo. O mesmo contexto, duas experiências radicalmente diferentes. Talvez isso revele algo importante. Não é que falte direcão. Direção existe.
Mas, na ausência de um eixo mais profundo, ela tende a ser orientada por algo mais automático: nossos vazios, nossas buscas por reconhecimento, segurança ou pertencimento.
Em um mundo de capacidade limitada, isso já produzia distorções. Em um mundo onde a capacidade de fazer se torna quase ilimitada, isso pode ser amplificado. A tecnologia expande nossa capacidade de agir, mas não responde à pergunta sobre o que deve orientar nossas ações. Fomos treinados para resolver problemas, mas decidir é outra coisa.
Decidir, no seu sentido mais profundo, é responder a uma pergunta mais exigente: o que realmente importa?”. Seguimos resolvendo problemas com eficiência crescente, mas perdemos o critério que orienta quais problemas realmente merecem ser resolvidos. Há também uma forma sofisticada de evitar esse encontro. Quando perguntas mais profundas aparecem, tendemos a anestesiá-las, seja pela busca por sucesso ou por formas de bem-estar que evitam o desconforto.
Mas a dor existencial nem sempre é um problema. Muitas vezes é um sinal. Essa reflexão também me atravessa. Em 1994, fui impulsionado a buscar propósito. Em 2002, atravessei uma ruptura profunda. Hoje, reconheço esse período como aquilo que São João da Cruz chamou de “Noite Escura da Alma”, um caminho de amadurecimento. Desde então, dediquei mais de duas décadas a trabalhar com organizações. Recentemente, porém, me deparei com um paradoxo.
Talvez o propósito, como muitas vezes o tratamos, seja uma tentativa de fixar algo que é, por natureza, mais vivo e instável: o significado.
Ao revisitar minha trajetória, algo se confirmou. Sempre que estive diante de um dilema entre projeção e profundidade, foi a profundidade que prevaleceu. E, com isso, algo se manteve: a integridade.
Começo também a questionar a forma como entendemos impacto. Nem todo impacto acontece por escala. Às vezes ele acontece por ressonância. Quando uma decisão nasce de coerência, ela tende a tocar outros de formas que não são imediatamente mensuráveis. O efeito não é expansão, mas alinhamento.
Talvez a dificuldade das empresas em tomar decisões transformadoras não esteja apenas na complexidade dos problemas, mas na ausência de um critério mais fundamental.
Porque, em um mundo onde quase tudo se torna possível, a pergunta deixa de ser apenas o que podemos fazer e passa a ser mais exigente, como discernir entre decisões que aumentam o Ebitda no curto prazo e aquelas que contribuem para a construção de um futuro centrado na vida.
E talvez a decisão mais importante não seja sobre o que fazer, mas sobre o que não fazer.
Artigo original: https://valor.globo.com/carreira/coluna/a-anestesia-existencial-das-liderancas.ghtml



Venha com a gente